As lamas produzidas pelo corte de rochas ornamentais (Figura 1), nomeadamente granitos, mármores e calcários, constituem um resíduo industrial produzido em grandes quantidades. Pretende-se assim avaliar a viabilidade da reutilização destas lamas como recurso, enquadrando-as numa lógica de valorização ambiental, através da sua aplicação na produção de solos artificiais.
Figura 1.
Equipamentos utilizados na serragem/corte de rocha ornamental na fábrica TRANSGRANITOS – Mármores e Granitos do Alto Tâmega, LDA:
a) e b) Máquina de corte multifios Multifiol (utiliza fios diamantados);
c) máquina de lâmina diamantada;
d) sistema de canalização das lamas e aspeto de uma amostra de lama recolhida próximo da máquina de corte.
Numa primeira fase, as lamas foram alvo de caracterização mineralógica e petrográfica, recorrendo a técnicas como microscopia em lâmina delgada e difração de raios X (Figura 2), com o objetivo de identificar as fases minerais dominantes e acessórias. Permitindo assim compreender a composição e o comportamento potencial do material, bem como identificar minerais que possam condicionar ou valorizar as futuras aplicações.
Figura 2.
a) Análise petrográfica da lâmina delgada realizada com luz transmitida no microscópio petrográfico Leica DM750P do Laboratório de Geologia da UTAD;
b) Equipamento PANalytical modelo X’Pert Pro MPD (DRX).
Posteriormente foram selecionados como resíduos orgânicos: substrato de cogumelos, bagaço de uva, resíduos vegetais da produção de canábis medicinal e casca de amêndoa (mesocarpo), para adicionar às lamas.
Procedeu-se a um ensaio prévio de reprodução com a espécie de minhoca Eisenia fetida, seguindo as diretrizes da norma 222 OCDE. Foram consideradas diferentes formulações, sendo a fração mineral do solo artificial proposto pela norma OCDE 222 substituída por lamas de diferentes composições.
Os resultados obtidos foram considerados válidos para todos os tratamentos, tendo sido avaliados parâmetros como a variação de massa das minhocas, registo da mortalidade e o número de descendentes. Considerando a ausência de efeitos negativos da exposição das minhocas às diferentes lamas, desenvolveu-se um ensaio de vermicompostagem de diferentes misturas de lamas e resíduos da produção de cogumelos.
Foram preparadas formulações de lamas e resíduos do cultivo de cogumelos e procedeu-se à homogeneização das misturas para obtenção de um substrato representativo.
As misturas foram acondicionadas em caixas perfuradas e submetidas a vermicompostagem com introdução de minhocas (Eisenia fetida).
Figura 3.
a) Solo artificial produzido em laboratório perante as diretrizes da norma 222 OCDE;
b) Réplicas independentes das várias formulações.
O substrato foi mantido com humidade semanalmente controlada e quando se observou declínio na atividade biológica. Retiraram-se as minhocas dos vermicompostados e reservaram-se as quantidades de material necessárias à realização de testes de avaliação da qualidade, nomeadamente ensaios respirométricos para quantificação da emissão de dióxido de carbono como indicador da atividade microbiana e da estabilidade do material, bem como ensaios de germinação destinados à avaliação da fitotoxicidade (Figura 4), sendo as formulações com melhor desempenho posteriormente replicadas à escala ampliada.
Figura 4.
a) Reserva de material necessário à realização de testes de avaliação da qualidade;
b) Ensaio respirométrico;
c) Ensaio de germinação.
Esta metodologia será replicada com os outros resíduos orgânicos acima mencionados.
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